domingo, 29 de julho de 2018

Tropicália: os 50 anos de um movimento mais que musical

O movimento da "Tropicália" foi muito mais abrangente que, tão somente, o lançamento do LP "Tropicália" ou "Panis et Circenses", como também ficou conhecida esta obra (e como fica bem clara na capa do próprio LP). Digo isso pois este artigo, mesmo sendo sobre os 50 anos do lançamento deste LP (ocorrido em fins de julho de 1968), também acaba fazendo uma análise não somente do LP - mas também sobre o que este movimento trouxe para o futuro, bem como sobre seus pretensos antecedentes...

  
O movimento da "Tropicália" foi muito mais abrangente que, tão somente, o lançamento do LP "Tropicália" (ou "Panis et Circenses", como também ficou conhecida esta obra). E, ao analisarmos tudo isso, vemos que o LP (bem como o próprio movimento advindo deste), não era algo realmente "novo", digamos assim. Digo isso pois o movimento teve início bem antes, podendo ser considerado como uma "ponta do iceberg" de algo que nasceu anteriormente (não sendo, também, algo que estava somente ligado à música). Tá difícil de se entender? Bom, visando um melhor entendimento disso tudo, veremos - à seguir - uma explicação do que se disse logo acima...




Podemos dizer que o movimento da "Tropicália" nasceu ainda no início do século XX - mais precisamente no final dos Anos 1920 - no período do Pós-Modernismo (alguns anos depois dos eventos da "Semana de Arte Moderna de 1922"). E, sendo mais preciso ainda: sua data de nascimento seria a do lançamento da "Revista de Antropofagia", em 1928, por um dos 'papas' do Modernismo tupiniquim: Oswald de Andrade. O seu nome se deve ao fato de Oswald ter para si que as artes, no Brasil, deveriam deglutir - comer, mesmo - tudo o que podia, de outras culturas (seja, elas quais fossem, mas, em especial, a cultura europeia). Bom, se levarmos isso em consideração, podemos dizer que o movimento da "Tropicália" nasceu 40 anos antes do lançamento do LP...



Um ano antes do lançamento do LP Tropicália, em 1967, o artista plástico Hélio Oiticica concebeu uma instalação, cujo nome dado foi "Tropicália", sendo que por esse motivo muitos dizem ter sido dessa obra que o nome do LP saiu (bem como, por extensão, o nome do próprio movimento). A obra remete ao conceito do tropical, bem como à pobreza dos trópicos (sendo a instalação um grande labirinto, que tem grande semelhança com as favelas, e que era percorrido a pé, onde se pisava em materiais como areia e brita). Ao final do percurso, deparava-se com um aparelho de TV ligado (uma conotação para o moderno imperialismo que domina as pobres regiões tropicais).




Também pode-se dizer que essa troca frutífera entre o Modernismo dos Anos 1920 e o movimento da Tropicália ocorreu no teatro (sendo bem contemporâneo ao lançamento do LP), uma vez que, ainda em 1967, foi encenado (pela primeira vez num palco), a peça "O Rei da Vela", de autoria de Oswald de Andrade - de novo ele - encenada no Teatro Oficina (em São Paulo), e dirigida por José Celso Martinez Corrêa (sendo uma das peças mais odiadas pela Ditadura Militar).



Tropicália acabou sendo um projeto musical, capturado pela gravação do LP homônimo, mas acabou se estendendo para bem mais além disso. Podemos dizer que muitos movimentos culturais - contemporâneos a ele ou nascidos mais adiante - beberam da fonte tropicalista. Um dos mais lembrados - e celebrados - é o próprio movimento cinematográfico do "Cinema Novo", onde muitos diretores passearam por temáticas ligadas ao tropicalismo. Um bom exemplo disso é o filme de Joaquim Pedro de Andrade, lançado em 1969 (ou seja, um ano depois do LP), "Macunaíma". Quer mais tropicalista que esta fábula filmada nos sertões tropicais do Brasil, com personagens tão folclóricos como o são?? E, um detalhe importantíssimo: Macunaíma foi baseado na obra literária de Mário de Andrade (outro modernista de 1922 e grande amigo e parceiro do próprio Oswald de Andrade, citado mais acima).



Nada mais justo e correto que façamos - 50 anos depois - uma grande homenagem (com estudos e pesquisas das mais estimulantes), sobre a obra "Tropicália" (bem como do movimento que dela se originou), afinal isso não foi somente um LP. E, por falar nele, segue abaixo os dados discográficos da obra:

Envolveram-se no projeto muitos músicos, sendo que dentre os principais estão: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto, Nara Leão e Jorge Ben.

Músicas: 

Lado A -
1- Miserere Nóbis - Autoria: Gilberto Gil e Capinam - Intérprete: Gilberto Gil
2- Coração Materno - Autoria: Vicente Celestino - Intérprete: Caetano Veloso
3- Panis et Circencis - Autoria: Caetano Veloso e Gilberto Gil - Intérprete: Os Mutantes
4- Lindoneia - Autoria: Caetano Veloso - Intérprete: Nara Leão 
5- Parque Industrial - Autoria: Tom Zé - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e Tom Zé
6- Geleia Geral - Autoria: Torquato Neto e Gilberto Gil - Intérprete: Gilberto Gil

Lado B -
1- Baby - Autoria: Caetano Veloso - Intérpretes: Caetano Veloso e Gal Costa
2- Três Caravelas (Las Tres Carabelas) - Autoria: Moreau Algueró Jr. (Versão: João de Barro) - Intérpretes: Caetano Veloso e Gilberto Gil
3- Enquanto seu Lobo não vem - Autoria: Caetano Veloso - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil e Rita Lee
4- Mamãe Coragem - Autoria: Caetano Veloso e Torquato Neto - Intérprete: Gal Costa
5- Bat Macumba - Autoria: Caetano Veloso e Gilberto Gil - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes
6- Hino ao Senhor do Bonfim - Autoria: Artur de Sales e João Antonio Wanderley - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes



Espero, com este pequeno artigo, ter conseguido mostrar a magnitude do movimento da Tropicália - que, como pode ser visto aqui, mesmo que de uma forma bem rápida - o quanto devemos a este efêmero movimento cultural (que lançou bases bem sólidas em nossa cultura e sociedade), há 50 anos atrás... 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Os 50 anos da "Passeata dos Cem Mil" durante a Ditadura Militar


O ano de 1968 foi um ano emblemático em todo o mundo, e, desde sempre, ficou ligado ao clima de contestação do momento (fosse ela política, social, musical, sexual, ou qualquer outra coisa que pudesse ser contestada, principalmente pelos jovens), uma vez que essa geração era extremamente combativa e afeita a uma boa briga, fosse ela qual fosse...


Com relação ao clima político - e repressivo - do Brasil, este foi (cada vez mais, e numa escala de intensidade sempre crescente, desde o ano anterior), um ano de guinada rumo à barbárie, à falta de diálogo e à violência e tortura como formas de manter o atual "status quo" criado pelos militares. Não é à toa que,  não sem uma certa razão, muitos historiadores consideram ser este momento em que houve a mudança de poder entre o marechal Castelo Branco e o marechal Costa e Silva, ocorrida no início de 1967, o ponto chave, o real momento em que a Ditadura Militar (de verdade, mesmo, escarrada e escancarada na cara do Brasil todo), teve início de fato...

E 1968 começou mesmo pegando fogo. Já no final de março, no dia 28, ocorreu a invasão do exército ao restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro - onde estudantes mais pobres almoçavam e jantavam, a preços mais módicos - e, à esta se seguiu um tiroteio. Nele morreu o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, logo transformado em um mártir do movimento estudantil. Seu corpo foi carregado do local pelos estudantes, que não o deixaram que fosse levado por ninguém (nem mesmo pelo IML carioca, já que temiam que o corpo sumisse por obra dos militares). Ele foi velado - protegido e guardado - por vários e vários estudantes, todos acampados dentro do prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Durante a noite do velório - e no dia seguinte, durante o enterro - muitas manifestações pipocaram por todo o Brasil (devido, em muito, à maciça cobertura que a imprensa fez sobre o ocorrido).  





Este e outros eventos foram conduzindo a população para manifestações cada vez maiores e mais efusivas. Em 21 de junho de 1968, ocorreu a chamada "Sexta-feira Sangrenta", onde aconteceu uma manifestação-relâmpago em repúdio à prisões e espancamentos - seguidos de uma sessão de humilhações públicas (tortura psicológica) - impingidos aos estudantes presos na noite anterior (20/06/1968), no Teatro Arena, no Rio de Janeiro, onde acontecia uma grande reunião, visando a organização de uma das maiores manifestações do Rio de Janeiro até então. O saldo desse dia 21/06/1968 foi de 3 mortes (na versão oficial), e de até 28 (para alguns grupos envolvidos).


Sendo assim, o ano de 1968 foi o ano do confronto, tanto entre os que queriam outra forma de poder, como uma Democracia, quanto para a esquerda armada, que queria um governo socialista (democrático ou nem tanto). Foi quando ocorreu o evento máximo deste ano - que completou 50 anos na ´terça-feira desta última semana agora - e que aglutinou todos estes descontentes em torno de uma manifestação bem no meio do fatídico ano de 1968...

Passeata dos Cem Mil - 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro



Nesta manifestação (ocorrida na quarta-feira exatamente posterior à "Sexta-feira Sangrenta" uma grande passeata, que parou (como nunca, antes), as ruas do centro do Rio de Janeiro - mostrou-se o tamanho do poder de mobilização dos estudantes (os reais organizadores do evento). E ao evento compareceram mais de 100.000 pessoas - e, dentre elas, estavam representadas várias categorias, tais como: os estudantes (obviamente), muitos religiosos, operários e sindicalistas, jornalistas, professores, intelectuais, artistas (dentre eles, cantores, compositores e atores de teatro, cinema e TV, dentre outros menos conhecidos), e, até mesmo, mulheres de movimentos feministas - mostrando qual era o grau de insatisfação da sociedade brasileira (mesmo que num "micro-cosmos", representado pela cidade do Rio de Janeiro). Foi este o evento-chave das manifestações do período, tendo ele ficado conhecido como a "Passeata dos Cem Mil"...  








Esta foi a manifestação que mais marcou o ano de 1968. E, contraditoriamente, foi onde menos problemas ocorreram. Foi também um marco que, com toda a razão, ecoou por sobre todas as manifestações populares ocorridas - dali para adiante - em todo o Brasil (desde as manifestações do final da Ditadura Militar - como as "Diretas Já" - até mesmo as últimas manifestações, que aconteceram já agora, durante este princípio do século XXI).

E não devemos - nem podemos - esquecê-las, afinal elas são, antes de mais nada, a "voz do povo" (principalmente em suas reivindicações mais primordiais). E governo algum deve se esquecer de dar a devida atenção à esta voz... 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Os 50 anos do "Maio de 1968", em Paris


Estamos exatamente no período em que se completa os 50 anos das manifestações do chamado "Maio de 68" - já que estas ocorreram durante os dias 2 e 10 de maio de 1968, em Paris, na França. Assim sendo, é intenção deste artigo explicar o movimento, suas reivindicações, suas vitórias e derrotas, o porque de sua grande importância histórica e, em última instância, as suas repercussões (à curto e á longo prazo).


Para tanto, comecemos pelo início. A sociedade francesa era, nesse final da década de 1960, extremamente rígida e repressora, duas coisas que os jovens desse momento histórico não estavam mais suportando com tanta facilidade - e isso, não somente na França, mas também, por todo o mundo. E estas atitudes começariam a ser contestadas em pouco tempo...

Agora, analisando mais precisamente a França deste momento, ela estava sendo governada por um herói francês da Segunda Guerra Mundial, o general Charles De Gaulle, que foi quem comandou a Resistência francesa aos alemães (que haviam tomado a França, em 1941). Porém, os jovens franceses não o consideravam como seu herói (mas, sim, um "herói de seus pais"), e, sendo assim, todos os que participavam do movimento que se iniciava não consideravam que este governante os estivessem representando.

Tudo se iniciou em 2 de maio de 1968, quando os estudantes universitários - num primeiro momento os da Universidade de Paris, em Nanterre (uma cidade próxima à capital francesa), depois se estendendo para os estudantes de outras universidades, como os da Sorbonne (de Paris) - todos sob o "comando" (se é que podemos considerar que um movimento desse tipo tinha, realmente, um comando) - de Daniel Cohn Bendit (que era, à época, um dos estudantes universitários que o tomaram como líder [Ele é o rapaz loiro do centro da foto abaixo]). Porém, as manifestações estudantis foram reprimidas com muita violência pela polícia - e contra-atacadas pelos estudantes com uma violência bem proporcional à que a gerou (arrancando as pedras de calçamento para atirá-las nos policiais, por exemplo) - coisa que, ao invés de coibi-las, teve um efeito contrário, já que começou a dar ao movimento estudantil o apoio de muitas outras categorias (tais como: os operários, os professores de suas faculdades, a federação dos sindicatos, os artistas e as classes menos abastadas da sociedade francesa).


Isso só deu mais força ao movimento, que começou a exigir a renúncia do presidente Charles De Gaulle e, nos dias que se seguiram, a violência da polícia e a gana dos jovens manifestantes em manter o movimento só fizeram aumentar. As ruas próximas ao centro de Paris foram ficando cada vez mais sem as suas pedras de calçamento - arrancadas aos montes a cada investida da polícia sobre os estudantes - e as cenas de batalhas campais pelas ruas só cresciam, culminando com as batalhas ocorridas na noite entre 10 e 11 de maio (que ficou conhecida como a "Noite das Barricadas").


Mesmo pressionado, De Gaulle não se convencia a ceder às exigências, renunciando. Ao invés disso, ele convocou novas eleições e, mesmo com o apoio de uma boa parte da população e de partidos - como o Partido Comunista da França - foram os aliados do presidente que ganharam essas eleições (o que deu um gosto amargo de derrota aos jovens que tanto lutaram e persistiram durante as batalhas daquele "Maio de 68"). Mas, no ano seguinte, após um plebiscito (cujo resultado foi a derrota de suas propostas), o presidente Charles De Gaulle, finalmente, renunciou. 


Porém, a importância dos movimentos do "Maio de 68" não pode ser contestada, uma vez que, passados 50 anos do ocorrido, ele ainda é estudado e analisado, e podemos sentir seus ecos até os nossos dias, de diversos modos diferentes. Dentre eles, um capítulo a parte é a forma curiosa e criativa com que os jovens contestaram e exigiram mudanças. Dentre elas estão os cartazes - afixados pelos muros de Paris - e as pichações - com suas palavras de ordem, muitas vezes com o uso de um grande tom sarcástico. Dentre eles, alguns se tornaram clássicos do movimento, tais como: "Sejamos realistas, exijamos o impossível!", "A imaginação no poder!!", "É proibido proibir!!!" (que virou uma música de Caetano Veloso), e, uma das mais clássicas, "A luta continua!!!"...



Num primeiro momento, o movimento de "Maio de 68" foi derrotado e sentiu-se traído. Porém, à curto prazo - ou seja, já no ano seguinte - acabou conseguindo que a maior de suas exigências fossem cumpridas (mesmo que não da forma como haviam, inicialmente, pensado, uma vez que o presidente veio a renunciar depois de sua derrota no plebiscito). E, pelo mundo, naquele mesmo ano de 1968, o "Maio de 68" parisiense foi influenciando muitos outros movimentos políticos de jovens, tais como: as manifestações contra a Guerra do Vietnam e os movimentos pelos Direito Civis dos negros, ambos nos Estados Unidos da América, bem como a chamada "Passeata dos Cem Mil", ocorrida no Brasil, durante a Ditadura Militar (coisa que acabou levando os militares a "endurecer" ainda mais o regime). 




Mas é à longo prazo que podemos entender porque nós ainda falamos sobre estes fatos - mesmo após 50 anos deles terem ocorrido. Afinal, além de um movimento de contestação política, estes jovens mostraram novas formas e alvos de contestação que, até os nossos dias, são usadas em muitas manifestações por todo o mundo. E, além disso, essas manifestações mostraram que os jovens estavam num caminho rumo a muitas mudanças comportamentais (que foram sendo vistas nestes últimos anos da década de 1960, mas, principalmente, durante a década de 1970). Estas ficaram conhecidas como as "revoluções comportamentais" (dentre elas podemos citar a chamada "revolução sexual")...


E, terminando, podemos ver, até mesmo destes anos 2010, os ecos desses jovens, que foram - há 50 anos atrás - petulantes o bastante para questionarem os "status quo" de sua sociedade, tendo ainda reverberações muito atuais (e, dentre elas, podemos citar - até mesmo - os chamados "black blocks"). Em muitas localidades e pontos de nossa atual sociedade, os gritos de ordem daquelas semanas de "Maio de 68" ainda estão longe de se calarem...


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Uma análise da Moda - Parte 1: a história de nosso vestuário através dos tempos (da Pré-História ao Renascimento)


A Moda é algo recorrente em nossas vidas, e, sendo assim, ela sempre teve uma grande parcela de importância em nossas vidas (num primeiro momento, como forma de nos proteger do inóspito planeta em que vivemos). E, a medida que o tempo foi passando, essa sua importância só fez aumentar. O que antes era relacionado, simplesmente, ao conforto e à rotina da vida, passou a ser, mesmo que dentro de uma enorme simplicidade, cada vez mais, um traço cultural de nossa espécie.

E, assim sendo, falar sobre uma história da Moda não é assim tão simples, justamente devido à suas particularidades e singularidades. Mas, mesmo com essa inerente dificuldade, é o que tentaremos fazer nesse artigo. Portanto, venha conosco conhecer essa história ímpar...


Nos primórdios (Pré-História)

Na Pré-História, nos chamados "Tempos das Cavernas", o homem não tinha ainda nenhuma noção de Moda, e se vestir era mais uma questão de necessidade, afinal de contas, boa parte desse período foi vivido durante a última grande "Era do Gelo", e o homem - diferente dos vários outros animais que existiam na Terra - não tinha pelos ou penas para se proteger do frio intenso. Sendo assim, ele acabou se utilizando da pele de outros animais para se cobrir, vencendo, dessa forma, o frio daqueles tempos...



No Egito Antigo

Durante a Antiguidade o Homem foi desenvolvendo cada vez mais o seu conceito de Moda, transformando-o, cada vez mais, em algo mais próximo do conceito que hoje conhecemos. Lógico que ainda não era o nosso conceito, mas já se podia distinguir, por exemplo, as classes sociais das pessoas pelas vestimentas que usavam (algo que, até hoje, ainda acontece). Também foi durante a Antiguidade que apareceram os profissionais que começaram a trabalhar com a confecção de vestimentas para outras pessoas (ainda de forma rudimentar, mas já como algo, no mínimo - ao menos para os padrões da época - regulamentado). Isso se deveu, em grande parte, à sofisticação que a civilização do Egito Antigo foi adquirindo com o passar dos séculos (bem como ao grande período de tempo que esta civilização existiu, podendo, assim, ir aprimorando todo o processo). Houve também uma grande evolução no quesito dos acessórios, como os calçados e as indumentárias (como adornos para cabeças, peito, braços e pernas, algumas apresentadas com metais e pedras preciosas).


Na Grécia Antiga

Já durante o período da Grécia Antiga - como acabou por ocorrer em vários outros campos de conhecimento da humanidade - a Moda evoluiu, se especializou e se expandiu, uma vez que a Grécia Antiga - em especial, no seu período Clássico - acabou por ditar muito do que seria, no futuro, a nossa dita Civilização Ocidental. Foi lá que se aprofundou as noções de distinção social pela ótica das vestimentas que cada um usava. Também foi na Grécia Antiga que se começou a utilizar, mais comumente, os tecidos (sendo estes de origem vegetal, diminuindo-se o uso dos materiais de origem animal, como o couro e as peles). Isso, por si só, já pode ser considerado um tremendo avanço no campo da Moda (uma vez que serão, daí para adiante, os tecidos de origem vegetal que ditarão as "regras" da Moda). É de se citar que houve um grande avanço no campo de acessórios, desde os mais simples (como louros vegetais adornando as cabeças gregas), bem como também na confecção de jóias (para a cabeças e outras partes do corpo).



Na Roma Antiga

Com a última grande civilização da Antiguidade - a dos antigos romanos - todas as concepções de vestuário (e, num âmbito maior, a própria Moda), estava pronta para se consolidar como uma das ferramentas culturais dos seres humanos - fosse como forma de se diferenciar as diversas classes sociais que já iam se delineando no horizonte da humanidade (em especial, do mundo ocidental), fosse como um nicho de mercado para o comércio cada vez mais importante (como atividade profissional e também como disseminador de costumes, dentre eles, a própria Moda). Numa sociedade onde o "status quo" era tão importante e valorizado, não é de se estranhar que o vestuário foi uma das vitrines por onde o cidadão romano se afirmava e demonstrava a toda a sua pompa e circunstância, criando várias formas de ilustrar isso para a sociedade. Vai daí o fato de ter sido na Roma Antiga que ocorreu um grande salto em áreas como a ourivesaria - com a descoberta de muitas pedras preciosas em suas várias províncias. Afinal, praticamente todo o mundo conhecido era parte do Império Romano.



Durante a Idade Média

Com a derrocada do Império Romano - e com as Invasões Bárbaras - inicia-se um processo que, grosso modo, leva à um tipo de retração cultural - em grande parte devido à implantação do Feudalismo - que acaba por atingir várias áreas no decorrer do extenso período de tempo que compreende a Idade Média. Porém, quanto à Moda - como também com relação à maior parte da vida cotidiana medieval - esta retração atingiu a última camada da sociedade estamental, que era a sociedade da Idade Média: a dos Camponeses (em sua maioria, de servos). Já quanto às outras duas camadas (a 1.ª, do Clero, e à 2.ª, da Nobreza), a Moda continuou a sua evolução. Uma das grandes "criações" medievais foi a das calças (coisa que, praticamente, inexistia antes desse período). Os adornos - que antes diferenciavam somente as classes sociais ligadas ao poder secular - agora começam, também, à distinguir os membros do poder espiritual (ou seja, os membros mais altos do poder da Igreja Católica Apostólica Romana), poder este que é extremamente abrangente e - até mesmo tentacular - durante toda a Idade Média (em especial, na chamada "Alta Idade Média").  



No Renascimento

Durante os séculos XV e XVI - com o movimento cultural do Renascimento - temos um aprimoramento sem igual, nas Artes em geral (bem como, também, no âmbito da Moda). Isso se deveu ao maior profissionalismo que algumas áreas vão atingindo - dentre elas, esta sobre a qual nos debruçamos neste artigo - já que as evoluções ocorriam em muitos setores das vidas das cidades (que, após a Idade Média, voltam a importância que tiveram na Antiguidade novamente). Tudo era feito ou refeito de forma a se aperfeiçoar a maneira de se fazer determinados procedimentos, levando a Humanidade a um novo patamar de tecnologia (fossem elas nas Artes, nos armamentos bélicos, nas construções, ou mesmo, na Moda).




-.- X -.-

Espero que tenham gostado deste artigo, e aproveito para informar que teremos, mais adiante, um novo artigo sobre este tema - a "Parte 2" (e final) - onde iremos analisar esta mesma história da Moda (porém, vislumbrando o que ocorreu durante os séculos XIX, XX e neste princípio do XXI. É só aguardarem para ler... Até lá!!

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Capitão América e a sua "luta real" durante a Segunda Guerra Mundial


Voltando ao assunto de personagens dos quadrinhos ou desenhos animados que acabaram ajudando em questões da História, vamos falar hoje sobre o caso emblemático do Capitão AméricaAfinal ele é um dos personagens da Marvel Comics mais conhecidos, é um dos mais antigos de todo o chamado "Universo Marvel" e é - pasmem - um dos únicos que não tem o dedo de Stan Lee em sua criação (já que foi criado por Joe Simon, roteiro, e Jack Kirby, desenho - [Respectivamente, os dois distintos senhores apresentados nas fotos que seguem abaixo.] - sendo ambos norte-americanos, isso em 1941, e para a Editora Timely Comics, uma antecessora da Marvel Comics). 




















Ele foi criado e pensado como parte integrante de uma espécie de "campanha" que visava tirar o povo norte-americano de sua atitude anti-guerra - na verdade, de total aversão à entrada dos Estados Unidos da América nos conflitos da Segunda Guerra Mundial - que imperava em todos níveis da sociedade. O personagem não foi - logicamente - o principal motivo da mudança de atitude dos norte-americanos, mas não podemos negar que a arte da capa da primeira revista em quadrinhos do personagem - a "Capitão América Comics n.º 1", de março de 1941 - com o super herói socando a cara de Adolf Hitler, pode, sim, ter ajudado um pouco na mudança de postura. 


É certo que o que realmente levou os E.U.A. à guerra foi o ataque do exército japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941 (tirando-os, assim, de sua indiferença anti-guerra). Porém, o que é bastante emblemático é que o lançamento do personagem - e de sua revista - antecede o ataque - e a posterior entrada na Segunda Guerra Mundial - em 9 meses (o que pode ser considerado, no mínimo, inusitado). 

[Abaixo: uma das fotos do ataque à Pearl Harbor.] 


Durante a Segunda Guerra Mundial, era comum - numa atitude que visava elevar o moral das tropas - a distribuição de revistas em quadrinhos do Capitão América aos soldados das tropas norte-americanas em combate na Europa.

[Abaixo: capas de revistas em quadrinhos do Capitão América distribuídas para as tropas norte-americanas que lutavam contra o Nazismo na Europa.]



Já em meados da década de 1960, Jack Kirby e Stan Lee dão uma boa repaginada no super herói, deixando-o com as características que o marcam desde então...

[À título de curiosidade: comparem a arte de Jack Kirby logo abaixo, da década de 1960, com a foto promocional do primeiro filme de Capitão América, que aparecerá mais adiante, e veja a grande semelhança das cenas.]


Outra coisa que é bom que se diga é que, mesmo que - como dito no início desse artigo - não se tem a participação de Stan Lee na criação e no início da "carreira" do personagem Capitão América, foi devido a ele que o personagem se tornou tão longevo. Afinal de contas, foi a dupla Jack KirbyStan Lee [Os dois, respectivamente, à época, seguem as fotos abaixo.] - que o personagem criou uma "sobrevida" de sucesso à partir de fins da década de 1960.


E, foi também sob a "batuta" de Stan Lee que, durante as décadas de 1970, 1980 e 1990, que a Marvel Comics foi criando sua aura de grande editora de quadrinhos de super heróis - duelando "pau a pau" com sua eterna rival, a DC Comics, que é, inclusive, mais antiga e dona de super heróis clássicos (como Superman e Batman) - levando a briga (à partir do final da década de 1990), para o campo do cinema.


[Esta é a foto a se comparar com a arte de Jack Kirby mostrada mais acima.]

Inclusive, no primeiro filme do personagem - "Capitão América, o Primeiro Vingador", de 2011 - há um misto de história do personagem e de História, mesmo (no caso, da própria Segunda Guerra Mundial), que é bem interessante, bem como bastante ilustrativa do personagem (e de seu auxílio às forças norte-americanas no conflito).


Isso nos mostra, mais uma vez, como as HQ's podem ser utilizadas para se "vender" ideologias de uma forma muito mais convincentes que se fossem usadas outras maneiras - digamos - mais convencionais. É ver pra crer...

quinta-feira, 22 de março de 2018

Walt Disney e sua participação em duas políticas do governo norte-americano, durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria


Vamos analisar, neste artigo, momentos em que o cartunista e empresário Walt Disney - através de sua equipe de criadores e da própria estrutura de sua empresa, a Walt Disney Produções - auxiliou o governo dos Estados Unidos da América em sua política de auxílio, durante Segunda Guerra Mundial, e em sua política anti-comunista, durante a Guerra Fria (que se iniciou num momento anterior, ou seja, ainda durante a Segunda Guerra Mundial). Para tanto, iniciaremos com um breve histórico de como foi a política exterior norte-americana (do século XIX e do início do século XX) - primeiramente as políticas dos presidentes James Monroe e Theodore Roosevelt - para depois analisarmos as mudanças trazidas pelo presidente Franklin Delano Roosevelt (já em meados do século passado).


Política exterior dos Estados Unidos no século XIX e início do século XX






















Primeiramente vamos analisar a política exterior de dois dos presidentes norte-americanos - James Monroe, do século XIX, e Theodore Roosevelt, do início do século XX - mostrando que esse quesito de poder mudou muito durante os quase duzentos e cinquenta anos da democracia norte-americana.

Vamos começar com James Monroe, que é o 5.º presidente dos Estados Unidos da América e governou de 1817 a 1825 [quadro acima, à esquerda]. Ele é o responsável pela política conhecida como "Doutrina Monroe", que pregava "A América para os americanos" (a máxima da política de isolacionismo norte-americano, onde os E.U.A. não queriam a intromissão de países europeus na política dos países das Américas, em especial a deles próprios).

Já com Theodore Roosevelt - que é o 26.º presidente dos Estados Unidos da América e governou de 1901 a 1909 [foto acima, à direita] - a política exterior norte-americana teve uma leve mudança (já que, em certo ponto, esta última foi um novo capítulo do mesmo tipo de ideologia da "Doutrina Monroe"). E o nome dessa mudança é a chamada política do "Big Stick" (numa tradução livre, "grande porrete"), sendo ela uma ideologia de não influência - política, econômica ou militar - de outros países (principalmente dos europeus), em países das Américas (a não ser que este país fosse o próprio E.U.A., lógico). Para este Roosevelt, os grandes países teriam uma "carta branca" para se envolver na vida dos países mais pobres (e menos civilizados, como pregava a vigente cartilha do Imperialismo).


Política exterior dos Estados Unidos na primeira metade do século XX



Durante parte da primeira metade do século XX, Franklin Delano Roosevelt - que é o 32.º presidente dos Estados Unidos da América e governou de 1933 a 1945 [foto acima] (e que era primo em quinto grau do primeiro Roosevelt da política dos E.U.A., apresentado mais acima neste mesmo artigo) - a política exterior norte-americana deu uma grande guinada com a sua chamada "Política da Boa Vizinhança" ("Good Neighbor Policy", no seu nome em inglês). Ela consistia de uma aproximação mais amigável dos E.U.A. para com os outros países das Américas, visando - nas entrelinhas - a colocação em prática do "New Deal" (política econômica para sanar os problemas da Grande Depressão dos Anos 1930, advinda da Queda da Bolsa de Nova York de 1929), e que foi estendida com a intervenção norte-americana - auxiliando na tomada de poder de diversas ditaduras militares, em diversos países das Américas - quando foi se iniciando, mais fortemente, a própria Guerra Fria (um pouco após o término da Segunda Guerra Mundial). E foi com este presidente Roosevelt - e sua "Política da Boa Vizinhança", bem como com a própria ocorrência da Guerra Fria - que apareceu a figura de Walt Disney para auxiliá-lo nisso tudo. Como isso aconteceu? É o que veremos à seguir...


E Walt Disney começa a ajudar o governo dos Estados Unidos da América

O cartunista e empresário Walt Disney participou de dois "projetos" do governo dos Estados Unidos da América: um do presidente Franklin Delano Roosevelt (durante a Segunda Guerra Mundial), e outro, já com o presidente Dwight D. Eisenhower, que governou de 1953 a 1961 (e que sucedeu Harry S. Truman, que governou entre 1945 a 1953, e foi o sucessor do próprio Franklin D. Roosevelt).

1.º) Os filmes "Alô Amigos" (de 1942) e "Você já foi à Bahia?" (de 1944): 


  
Durante o governo de Franklin Delano Roosevelt (e sua "Política da Boa Vizinhança"), os estúdios de Walt Disney ajudaram a vender essa ideologia  dos norte-americanos. Isso foi feito produzindo os longa metragens de animação "Alô Amigos" (de 1942), e "Você já foi à Bahia?" (de 1944), que apresentavam o personagem Pato Donald como um turista norte-americano que conhecia amigos em países da América Latina - como o México (representado pelo galo Panchito), e o Brasil (representado pelo papagaio Zé Carioca) - e sempre se maravilhava com as culturas latinas que encontrava pela frente. Pode-se dizer que as animações conseguiram seu objetivo, pelo menos em relação ao Brasil, já que deve ter ajudado um pouco o governo brasileiro do presidente Getúlio Vargas à se decidir a entrar na Segunda Guerra Mundial ao lados dos Aliados (como queria "Política da Boa Vizinhança" de Roosevelt).

2.º) A série de TV "O Homem no Espaço" (de 1955), criada por Walt Disney e apresentada por Wernher von Braun:






















Durante o governo de Dwight D. Eisenhower - que governou de 1953 a 1961 - iniciou-se a corrida espacial (como parte integrante da Guerra Fria). Sendo assim, os estúdios de Walt Disney produziram, em 1955, uma série de TV com o nome de "O Homem no Espaço". e era apresentada por ninguém menos que Wernher von Braun - que foi o cientista que criou os foguetes V-2 nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial - tendo sido "recrutado" pelos norte-americanos para ser um dos cientistas do programa espacial da NASA (sendo um dos maiores responsáveis pelo sucesso de programas como o Mercury e o Apollo).


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Inusitado essa forma de utilização de desenhos animados e produção pra a TV dos estúdios de Walt Disney como forma de disciminação de ideologias políticas? Nem tanto quanto podemos imaginar. Tanto que voltaremos a este tema num futuro artigo...