sábado, 22 de setembro de 2018

Os 30 anos da Constituição de 1988 (e uma geral nas outras constituições do Brasil)


O Brasil, durante toda a sua breve história, teve 7 - Isso mesmo: sete constituições! - e, sendo assim, é intenção desse artigo falar de todas elas - em especial da última delas, a de 1988, que está completando exatos 30 anos no dia de hoje (já que foi promulgada em 22 de setembro de 1988). [Como mostra a foto abaixo, deste dia, com o deputado Ulisses Guimarães levantando-a e mostrando-a "ao povo brasileiro".] 


Esta Constituição foi chamada de "Constituição-Cidadã", numa alusão ao fato de que, após 21 anos de Ditadura Militar (de 1964 a 1985) - bem como à política do Brasil ter vivido tantas intercalações entre breves períodos democráticos (ou quase isso), e momentos ditatoriais (além do que já foi citado acima, houve também a Ditadura do Estado Novo, sob o governo de Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945).

Bem, antes de falar especificamente sobre nossa última Constituição, vamos fazer uma breve análise das constituições que a precederam. É o que faremos à seguir...

-.-x_X_x-.-


Vamos a elas, portanto...

1.ª) Constituição de 1824 (do Império do Brasil):



Foi outorgada (ou seja, não foi votada e aprovada por uma Assembleia Constituinte - que havia sido dissolvida pelo Imperador Dom Pedro I no ano anterior de 1823 - mas imposta à aprovação de uma Assembleia enfraquecida), no dia 25 de março de 1824. Foi a mais duradoura da história do Brasil, tendo vigorado por 65 anos.

2.ª) Constituição de 1891 (a primeira da República do Brasil):



Foi promulgada (ou seja, votada e aprovada por uma Assembleia Constituinte), em decorrência da Proclamação da República, ocorrida em 1889, e a posterior troca de forma de governo no país (de Monarquia para República). Durou somente durante o período conhecido como "República Velha", e por um pequeno momento, logo após a "Revolução de 1930", totalizando assim 43 anos.

3.ª) Constituição de 1934 (a da chamada segunda República do Brasil):



Foi promulgada (votada e aprovada por uma Assembleia Constituinte), mesmo que com muito clamor popular (em especial decorrente das batalhas da Revolução Constitucionalista de 1932, onde os paulistas pegaram em armas e cobraram uma nova constituição para o pós "Revolução de 1930"). Mesmo tendo sido derrotados pelo exército federal de Getúlio, suas exigências surtiram o efeito desejado, já que foi instaurada uma Assembleia Constituinte, em 1933, sendo esta que gerou a chamada "Constituição de 1934". Porém, a mesma teve vida curta, uma vez que o golpe de Estado de Vargas acabou por instaurar a Ditadura do Estado Novo, em 1937, e, com ela, uma nova constituição veio junto (fazendo com que esta 3.ª Constituição durasse meros 3 anos, sendo a que menos tempo vigorou em nossa história política).

4.ª) Constituição de 1937 (a "polaca", devido ao viés fascista da mesma):



Foi outorgada (ou seja, imposta e aprovada pelo então ditador Getúlio Vargas), e era uma clara cria do golpe de Estado que acabou por instaurar a Ditadura do Estado Novo, em 1937, tendo vigorado durante esta ditadura (ou seja, por 9 anos). Com o término da Segunda Guerra Mundial (e a consequente derrubada de Vargas do poder, com o fim da guerra). Com as novas eleições (e com o novo presidente, o general Eurico Gaspar Dutra), uma nova Assembleia Constituinte foi instituída, dando origem à nossa próxima constituição.

5.ª) Constituição de 1946 (a da chamada terceira República do Brasil):



Foi promulgada (ou seja, aprovada por uma nova Assembleia Constituinte), e era uma clara guinada democrática pós golpe de Estado da Ditadura do Estado Novo, em 1937. Iniciou-se com o novo presidente, Eurico Gaspar Dutra, e durou até - infelizmente - um novo golpe de Estado, desta vez perpetrado pelos militares, em 1964. Um pouco depois, em 1967, uma nova constituição veio à tona, pelas mãos do novo mandatário, o marechal Castelo Branco. Durou 21 anos.

6.ª) Constituição de 1967 (deu legitimidade à Ditadura Militar no Brasil):



Foi "promulgada" (ou seja, leia-se aí outorgada, mesmo, pelos políticos que estavam à mercê das ordens dos militares, já que o Congresso Nacional havia sido fechado no ano anterior, em 1966, e mutilado pelas muitas cassações de parlamentares ocorridas no período), e foi uma clara guinada ditatorial pós golpe de Estado da Ditadura Militar, em 1964. Iniciou-se com o primeiro presidente militar, o marechal Castelo Branco, passando por todos os outros militares que governaram durante a Ditadura Militar, e ainda perdurou até a promulgação da nova - e atual - Constituição (a de 1988). Sendo assim, também durou 21 anos (mesmo período que a própria Ditadura Militar perdurou).

-.-x_X_x-.-


E então, chegamos à nossa atual Constituição - a que está completando 30 anos hoje - e que detalho melhor abaixo:

7.ª) Constituição de 1988 (a chamada Constituição-Cidadã do Brasil):



Foi promulgada (ou seja, aprovada por uma nova Assembleia Constituinte, convocada logo após a primeira eleição legislativa ocorrida logo após o poder ser passado aos civis), pelos políticos que, desta vez, haviam sido eleitos de forma direta. Ficou conhecida como "Constituição-Cidadã", numa alusão ao fato de que, após 21 anos de Ditadura Militar (de 1964 a 1985) - bem como à política do Brasil ter vivido tantas intercalações entre breves períodos democráticos (ou quase isso), e momentos ditatoriais (além do que já foi citado acima, houve também a Ditadura do Estado Novo, sob o governo de Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945). Mesmo que, pela mera contagem de tempo, ela seja somente a quarta mais duradoura da história política do país, ela é que por mais tempo democrático tenha perdurado. E, mesmo que já lhe seja necessária algumas reformas - como a tão temida reforma da previdência, ou a tão recalcitrante reforma política - ao menos até então, ela tem feito bem o seu papel (papel este que já era comemorado e ressaltado logo após sua promulgação). 

Resumindo: como tudo no Brasil, isso também é algo que ainda tem muito a melhorar e - na realidade - ainda está em plena construção. Prossigamos, então...

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma narrativa da Segunda Guerra Mundial


Há poucos dias atrás, no último dia 1.º de setembro, completou-se 79 anos do início da Segunda Guerra Mundial, já que foi neste dia - em 1939 - que exércitos do III Reich alemão (comandados por seu fuhrër, Adolf Hitler), com a invasão da Polônia. [Na foto acima, uma das cenas de batalha na Europa.]

E, já que é intensão desse artigo fazer uma narrativa que resuma como foram os conturbados 6 anos da Segunda Guerra Mundial, vamos iniciar - logo abaixo - com uma breve explicação de como foi a ascensão dos governos totalitários em algum países da Europa, seguindo adiante com a guerra, propriamente dita. Então, vamos lá...

-.x-X-x.-

Tudo começou no início dos Anos 1920, na Itália, com a subida ao poder de Benito Mussolini [abaixo, na foto da esquerda], que instaurou o Fascismo (com um golpe de Estado), primeiro governo totalitário da Europa. Tentando seguir seus passos, Adolf Hitler [abaixo, na foto da direita], tentou um golpe na Alemanha, porém este não foi vencedor. Com isso, Hitler teve de aguardar mais de uma década para subir ao poder (de forma democrática), em 1933, e, após isso, começar uma grande perseguição à oposição, fazendo assim com que seu Nazismo se tornasse o partido único - e totalmente poderoso - da Alemanha (dando, com isso, as condições para que a Segunda Guerra Mundial se iniciasse, ainda antes do final desta mesma década de 1930).














Com isso, os Anos 1930 foram marcados por esta tendência totalitarista em alguns países europeus (também havia chefes de Estado totalitários em Portugal - com Salazar - e na Espanha - com o chamado "generalíssimo" Franco), e isso ocorreu como uma resposta à noção de que a democracia havia tido uma grande perda (com a derrocada econômica advinda da Crise da Queda da Bolsa de Nova York, em 1929, e a posterior Depressão, durante a década de 1930).

Devido às alianças criadas em segredo, dois blocos se delinearam. Eram eles: os chamados Aliados - que eram, principalmente, a Inglaterra, a França e a União Soviética (com os Estados Unidos da América entrando mais adiante) - e o chamado Eixo - que eram a Alemanha, a Itália e o Japão (com a Itália mudando de lado antes do final da guerra). Foi entre estes dois blocos (e seus aliados "secundários", principalmente no lado dos Aliados). [À seguir, um quadro com as principais alianças da Segunda Guerra Mundial.]


A Segunda Guerra Mundial tem dois momentos específicos, sendo eles: o de Avanço do Eixo - entre 1939 e 1941 - e o de Avanço dos Aliados - entre 1942 e 1945.

No primeiro momento o exército nazista - e sua "blitzkrieg", ou, como ficou conhecida pelos Aliados, sua "guerra relâmpago" [Na primeira foto à seguir, o temido exército nazista em uma das invasões da Segunda Guerra Mundial.] - foi tomando conta dos países que invadiu (tais como a Polônia, a Bélgica, a Dinamarca, a Noruega e, a "cereja do bolo" alemão, a França (que ficou dividida em "França ocupada", com capital em Paris, e "França colaboracionista" - ou seja, nazista - com capital em Vichy). [Na segunda foto abaixo, o momento em que Hitler e sua cúpula nazista passeia pela Paris tomada.] Durante este primeiro momento somente a Inglaterra se manteve impassível aos ataques alemães, mesmo com bombardeios quase diários da Luftwaffe (a força aérea nazista) [Na terceira foto abaixo, um dos bombardeios à Londres.]. Também a Itália se expandiu (como em sua invasão à Etiópia, no norte da África), bem como o Japão imperialista dominou partes da China, a Coreia (que, à época, ainda não havia se dividido), e muitas ilhas do Pacífico Sul, fazendo com que o Eixo se expandisse bastante nesse momento... 





E, já num segundo momento - após o ataque japonês à Pearl Harbor , uma base naval norte-americana no Hawaii - os Estados Unidos da América entram na guerra, fazendo com que o jogo comece a virar a favor dos Aliados [Na primeira foto abaixo, um dos bombardeios que dizimaram a frota norte-americana no Pacífico Sul.]. Os pontos principais dessa virada são as derrotas impingidas aos alemães na União Soviética, principalmente com a Batalha de Stalingrado (entre 1942 e 1943) [Na segunda foto à seguir, um instantâneo que mostra a garra do Exército Vermelho soviético em sua defesa à Stalingrado.], ou pelo restante dos Aliados - à saber: Inglaterra, Estados Unidos da América e França, dentre outros - com o próprio "Dia D" (à partir de junho de 1944) [Na terceira foto abaixo, um dos momentos do grande desembarque do Dia D.].   





Bom, podemos dizer que após o início desta segunda fase, durante o decorrer da mesma, o Eixo - primeiramente, com a Alemanha, na Europa, e, depois, com o Japão, na Ásia - só seguiu uma grande "ladeira abaixo" na direção da derrota. E, como os dois grandes vencedores - que se delineavam na geo-política do pós-guerra - esta Segunda Guerra Mundial já nos mostrava um pouco do que a Guerra Fria seria... Digo isso pois os EUA - vindo do oeste, com os outros Aliados (desde o desembarque do "Dia D") - e a URSS - com seu exército vermelho vindo do leste (após a Batalha de Stalingrado), foi quase uma corrida para ver quem chegava à Berlim primeiro. Uma vez que a URSS ganhou essa "corrida" [Na primeira foto à seguir, o momento em que os soviéticos tomam o Reichtag nazista, em Berlim.], os EUA teve de mostrar sua força - no caso com o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima [Na segunda foto abaixo, o "cogumelo atômico" gerado pelo lançamento da primeira bomba atômica.] e Nagasaki, no Japão...



-.x-X-x.-

Informo que foi intenção deste artigo fazer uma pequena narrativa da Segunda Guerra Mundial - narrativa esta que se presta a ser um resumo desse fato histórico tão amplo e tão pesquisado - não tendo a pretensão de esgotar o assunto...


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Fatos históricos dos Anos 1960 através da criação de personagens da Marvel Comics


Antes mesmo de se chamar Marvel Comics, ela já fazia algo novo pelas Histórias em Quadrinhos (HQ's) de super-heróis, trazendo com isso contemporaneidade ao gênero. Com a criação de quais personagens isso aconteceu? É o que veremos nesse artigo...


Anteriormente à entrada na década de 1960, quando a Editora ainda se chamava Timely Comics, em 1941Joe SimonJack Kirby criam o Capitão América, um super-herói que era, na verdade, um super soldado que lutaria contra o Nazismo de Adolf Hitler na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. O personagem seria retomado mais adiante e se tornaria um dos grandes personagens da Marvel Comics.





Agora, ao entrarmos, mesmo, na década de 1960 - momento em que a Editora passa a ter o nome pela qual ficou, realmente, conhecida (ou seja, quando ela ganha o nome de Marvel Comics), muitos dos fatos históricos primordiais - desta década tão emblemática do século XX - vão sendo analisados, "in loco", por seus editores, em especial por uma figura que teria - dali para frente - o seu nome extremamente ligado ao da Marvel Comics: Stan Lee; isso devido ao grande rol de super-heróis que este criou (e, principalmente, ao fato de ter sido ele que começou a criar super-heróis mais realistas, que viviam em meio à realidade do seu momento, com um bom "pé na realidade")... Dentre eles, os primeiros a serem criados foram os integrantes do grupo Quarteto Fantástico, que apareceram em 1961, em obra da dupla Stan Lee e Jack Kirby (sendo que estes são os primeiros personagens criados já sob o nome da nova Editora, ou seja: Marvel Comics). Em suas primeiras histórias podemos ver que o pano de fundo histórico é, dentre outras coisas menos marcantes, a própria Corrida Espacial (já que estes eram cientistas e pilotos espaciais que se arriscaram na exploração espacial, mesmo que de forma particular, visando - com isso - ajudarem no pedido feito pelo então presidente dos Estados Unidos da América, John F. Kennedy, feito no mesmo ano de 1961, pedindo afinco dos norte-americanos - em especial, da NASA - na questão de conseguir se levar e se trazer astronautas americanos, em um voo tripulado à Lua, sendo este o principal intuito da própria Corrida Espacial).




Seguindo no "caminho" da década de 1960, a Marvel Comics, em 1962, e através da dupla Stan Lee e Steve Ditko, cria um de seus super-heróis mais conhecidos e amados: o Homem-Aranha. Quanto a que fato histórico esta criação remete, podemos dizer que, neste início da década de 1960, ele ainda não era, assim, tão bem demonstrado e gritante, porém seria algo que - ao final da década em questão - ficaria muito bem demonstrado. Estamos falando da emancipação e, principalmente, do embate que haveria entre os jovens e a sociedade constituída, com fatos como: o Maio de 1968 (em Paris), a realização do grande show de rock do Festival de Woodstock, em 1969 (nos EUA), e, devido a esta coisa só crescer cada vez mais durante a década seguinte de 1970 (que "pega fogo" com a inclusão dos protestos contra a Guerra do Vietnam).




Também em 1962Stan Lee e Jack Kirby criam o Incrível Hulk, um super-herói que era o cientista Bruce Banner, e que trabalhava para o Exército norte-americano e que, devido a um acidente ocorrido quando se testava um novo tipo de armamento - uma bomba que utilizaria a energia gama - fazendo com que este sofresse devido à radiação gama que escapou quando aqueles testes foram feitos. Isso nos remete à própria Corrida Armamentista - com suas bombas atômicas e de hidrogênio - bem como, num âmbito maior, à Guerra Fria (e suas disputas entre os EUA, capitalista, e a URSS, socialista).



Continuando com nossa viagem pela década de 1960, a Marvel Comics cria, em 1963, através da dupla Stan Lee e Jack Kirby, o grupo de super-heróis X-Men, um grupo de mutantes que - mesmo com seus super poderes (advindos de mutações em um genes específico, chamado pelos estudiosos - para o bem ou para o mal - de "fator X") - trazendo para os que as têm, muito mais problemas, do que algo de bom (fazendo-os pensar se estas mutações são um dom ou um grande fardo aos mutantes). Podemos dizer que esta criação remete aos avanços da Ciência na década em questão (em especial à Genética), bem como, em especial, podemos colocá-los como uma espécie de fábula, onde a luta entre humanos e mutantes nos remete ao momento da Luta pelos Direitos Civis dos Negros nos EUA (uma vez que os mutantes liderados pelo Professor Xavier - os X-Men - podem ser ligados aos negros e brancos que achavam que as duas partes poderiam e deveriam viver em comunhão [coisa que era pregada pelo líder Martin Luther King, representado nos quadrinhos pelo líder dos X-Men], bem como - em oposição - os mutantes liderados por Magneto - e sua Irmandade Mutante - pode ser ligada aos negros que queriam um confronto com os brancos [como era pregado pelo líder dessa vertente do movimento, Malcom X, representado pelo líder da Irmandade, Magneto]). Mais Anos 1960, impossível...



E, terminando esse nosso passeio por fatos históricos dos Anos 1960 e suas relações com a criação de alguns super-heróis da Marvel Comics, chegamos ao ano de 1966, quando Stan Lee e Jack Kirby criam o Pantera Negra, um super-herói negro e que era o herdeiro do trono de um reino africano - e fictício - chamado Wakanda, e que, estando nos Estados Unidos da América, acaba por ajudar na defesa dos inocentes (em especial, dos próprios negros). O próprio nome do herói já nos remete ao grupo armado de defesa dos direitos dos negros norte-americanos - que eram conhecidos como Panteras Negras - e a todo o processo pela qual os negros passaram na Luta pelos Direitos Civis dos Negros.



-.-x-X-x-.-

Espero que tenham gostado de toda essa viagem pela década de 1960 através da criação de alguns dos personagens mais conhecidos do Universo das HQ's de super-heróis da Marvel Comics, mostrando o quanto as Histórias em Quadrinhos podem ser ferramentas bastante importantes para conhecermos mais de nossa própria HISTÓRIA...

domingo, 29 de julho de 2018

Tropicália: os 50 anos de um movimento mais que musical

O movimento da "Tropicália" foi muito mais abrangente que, tão somente, o lançamento do LP "Tropicália" ou "Panis et Circenses", como também ficou conhecida esta obra (e como fica bem clara na capa do próprio LP). Digo isso pois este artigo, mesmo sendo sobre os 50 anos do lançamento deste LP (ocorrido em fins de julho de 1968), também acaba fazendo uma análise não somente do LP - mas também sobre o que este movimento trouxe para o futuro, bem como sobre seus pretensos antecedentes...

  
O movimento da "Tropicália" foi muito mais abrangente que, tão somente, o lançamento do LP "Tropicália" (ou "Panis et Circenses", como também ficou conhecida esta obra). E, ao analisarmos tudo isso, vemos que o LP (bem como o próprio movimento advindo deste), não era algo realmente "novo", digamos assim. Digo isso pois o movimento teve início bem antes, podendo ser considerado como uma "ponta do iceberg" de algo que nasceu anteriormente (não sendo, também, algo que estava somente ligado à música). Tá difícil de se entender? Bom, visando um melhor entendimento disso tudo, veremos - à seguir - uma explicação do que se disse logo acima...




Podemos dizer que o movimento da "Tropicália" nasceu ainda no início do século XX - mais precisamente no final dos Anos 1920 - no período do Pós-Modernismo (alguns anos depois dos eventos da "Semana de Arte Moderna de 1922"). E, sendo mais preciso ainda: sua data de nascimento seria a do lançamento da "Revista de Antropofagia", em 1928, por um dos 'papas' do Modernismo tupiniquim: Oswald de Andrade. O seu nome se deve ao fato de Oswald ter para si que as artes, no Brasil, deveriam deglutir - comer, mesmo - tudo o que podia, de outras culturas (seja, elas quais fossem, mas, em especial, a cultura europeia). Bom, se levarmos isso em consideração, podemos dizer que o movimento da "Tropicália" nasceu 40 anos antes do lançamento do LP...



Um ano antes do lançamento do LP Tropicália, em 1967, o artista plástico Hélio Oiticica concebeu uma instalação, cujo nome dado foi "Tropicália", sendo que por esse motivo muitos dizem ter sido dessa obra que o nome do LP saiu (bem como, por extensão, o nome do próprio movimento). A obra remete ao conceito do tropical, bem como à pobreza dos trópicos (sendo a instalação um grande labirinto, que tem grande semelhança com as favelas, e que era percorrido a pé, onde se pisava em materiais como areia e brita). Ao final do percurso, deparava-se com um aparelho de TV ligado (uma conotação para o moderno imperialismo que domina as pobres regiões tropicais).




Também pode-se dizer que essa troca frutífera entre o Modernismo dos Anos 1920 e o movimento da Tropicália ocorreu no teatro (sendo bem contemporâneo ao lançamento do LP), uma vez que, ainda em 1967, foi encenado (pela primeira vez num palco), a peça "O Rei da Vela", de autoria de Oswald de Andrade - de novo ele - encenada no Teatro Oficina (em São Paulo), e dirigida por José Celso Martinez Corrêa (sendo uma das peças mais odiadas pela Ditadura Militar).



Tropicália acabou sendo um projeto musical, capturado pela gravação do LP homônimo, mas acabou se estendendo para bem mais além disso. Podemos dizer que muitos movimentos culturais - contemporâneos a ele ou nascidos mais adiante - beberam da fonte tropicalista. Um dos mais lembrados - e celebrados - é o próprio movimento cinematográfico do "Cinema Novo", onde muitos diretores passearam por temáticas ligadas ao tropicalismo. Um bom exemplo disso é o filme de Joaquim Pedro de Andrade, lançado em 1969 (ou seja, um ano depois do LP), "Macunaíma". Quer mais tropicalista que esta fábula filmada nos sertões tropicais do Brasil, com personagens tão folclóricos como o são?? E, um detalhe importantíssimo: Macunaíma foi baseado na obra literária de Mário de Andrade (outro modernista de 1922 e grande amigo e parceiro do próprio Oswald de Andrade, citado mais acima).



Nada mais justo e correto que façamos - 50 anos depois - uma grande homenagem (com estudos e pesquisas das mais estimulantes), sobre a obra "Tropicália" (bem como do movimento que dela se originou), afinal isso não foi somente um LP. E, por falar nele, segue abaixo os dados discográficos da obra:

Envolveram-se no projeto muitos músicos, sendo que dentre os principais estão: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto, Nara Leão e Jorge Ben.

Músicas: 

Lado A -
1- Miserere Nóbis - Autoria: Gilberto Gil e Capinam - Intérprete: Gilberto Gil
2- Coração Materno - Autoria: Vicente Celestino - Intérprete: Caetano Veloso
3- Panis et Circencis - Autoria: Caetano Veloso e Gilberto Gil - Intérprete: Os Mutantes
4- Lindoneia - Autoria: Caetano Veloso - Intérprete: Nara Leão 
5- Parque Industrial - Autoria: Tom Zé - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e Tom Zé
6- Geleia Geral - Autoria: Torquato Neto e Gilberto Gil - Intérprete: Gilberto Gil

Lado B -
1- Baby - Autoria: Caetano Veloso - Intérpretes: Caetano Veloso e Gal Costa
2- Três Caravelas (Las Tres Carabelas) - Autoria: Moreau Algueró Jr. (Versão: João de Barro) - Intérpretes: Caetano Veloso e Gilberto Gil
3- Enquanto seu Lobo não vem - Autoria: Caetano Veloso - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil e Rita Lee
4- Mamãe Coragem - Autoria: Caetano Veloso e Torquato Neto - Intérprete: Gal Costa
5- Bat Macumba - Autoria: Caetano Veloso e Gilberto Gil - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes
6- Hino ao Senhor do Bonfim - Autoria: Artur de Sales e João Antonio Wanderley - Intérpretes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes



Espero, com este pequeno artigo, ter conseguido mostrar a magnitude do movimento da Tropicália - que, como pode ser visto aqui, mesmo que de uma forma bem rápida - o quanto devemos a este efêmero movimento cultural (que lançou bases bem sólidas em nossa cultura e sociedade), há 50 anos atrás... 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Os 50 anos da "Passeata dos Cem Mil" durante a Ditadura Militar


O ano de 1968 foi um ano emblemático em todo o mundo, e, desde sempre, ficou ligado ao clima de contestação do momento (fosse ela política, social, musical, sexual, ou qualquer outra coisa que pudesse ser contestada, principalmente pelos jovens), uma vez que essa geração era extremamente combativa e afeita a uma boa briga, fosse ela qual fosse...


Com relação ao clima político - e repressivo - do Brasil, este foi (cada vez mais, e numa escala de intensidade sempre crescente, desde o ano anterior), um ano de guinada rumo à barbárie, à falta de diálogo e à violência e tortura como formas de manter o atual "status quo" criado pelos militares. Não é à toa que,  não sem uma certa razão, muitos historiadores consideram ser este momento em que houve a mudança de poder entre o marechal Castelo Branco e o marechal Costa e Silva, ocorrida no início de 1967, o ponto chave, o real momento em que a Ditadura Militar (de verdade, mesmo, escarrada e escancarada na cara do Brasil todo), teve início de fato...

E 1968 começou mesmo pegando fogo. Já no final de março, no dia 28, ocorreu a invasão do exército ao restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro - onde estudantes mais pobres almoçavam e jantavam, a preços mais módicos - e, à esta se seguiu um tiroteio. Nele morreu o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, logo transformado em um mártir do movimento estudantil. Seu corpo foi carregado do local pelos estudantes, que não o deixaram que fosse levado por ninguém (nem mesmo pelo IML carioca, já que temiam que o corpo sumisse por obra dos militares). Ele foi velado - protegido e guardado - por vários e vários estudantes, todos acampados dentro do prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Durante a noite do velório - e no dia seguinte, durante o enterro - muitas manifestações pipocaram por todo o Brasil (devido, em muito, à maciça cobertura que a imprensa fez sobre o ocorrido).  





Este e outros eventos foram conduzindo a população para manifestações cada vez maiores e mais efusivas. Em 21 de junho de 1968, ocorreu a chamada "Sexta-feira Sangrenta", onde aconteceu uma manifestação-relâmpago em repúdio à prisões e espancamentos - seguidos de uma sessão de humilhações públicas (tortura psicológica) - impingidos aos estudantes presos na noite anterior (20/06/1968), no Teatro Arena, no Rio de Janeiro, onde acontecia uma grande reunião, visando a organização de uma das maiores manifestações do Rio de Janeiro até então. O saldo desse dia 21/06/1968 foi de 3 mortes (na versão oficial), e de até 28 (para alguns grupos envolvidos).


Sendo assim, o ano de 1968 foi o ano do confronto, tanto entre os que queriam outra forma de poder, como uma Democracia, quanto para a esquerda armada, que queria um governo socialista (democrático ou nem tanto). Foi quando ocorreu o evento máximo deste ano - que completou 50 anos na ´terça-feira desta última semana agora - e que aglutinou todos estes descontentes em torno de uma manifestação bem no meio do fatídico ano de 1968...

Passeata dos Cem Mil - 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro



Nesta manifestação (ocorrida na quarta-feira exatamente posterior à "Sexta-feira Sangrenta" uma grande passeata, que parou (como nunca, antes), as ruas do centro do Rio de Janeiro - mostrou-se o tamanho do poder de mobilização dos estudantes (os reais organizadores do evento). E ao evento compareceram mais de 100.000 pessoas - e, dentre elas, estavam representadas várias categorias, tais como: os estudantes (obviamente), muitos religiosos, operários e sindicalistas, jornalistas, professores, intelectuais, artistas (dentre eles, cantores, compositores e atores de teatro, cinema e TV, dentre outros menos conhecidos), e, até mesmo, mulheres de movimentos feministas - mostrando qual era o grau de insatisfação da sociedade brasileira (mesmo que num "micro-cosmos", representado pela cidade do Rio de Janeiro). Foi este o evento-chave das manifestações do período, tendo ele ficado conhecido como a "Passeata dos Cem Mil"...  








Esta foi a manifestação que mais marcou o ano de 1968. E, contraditoriamente, foi onde menos problemas ocorreram. Foi também um marco que, com toda a razão, ecoou por sobre todas as manifestações populares ocorridas - dali para adiante - em todo o Brasil (desde as manifestações do final da Ditadura Militar - como as "Diretas Já" - até mesmo as últimas manifestações, que aconteceram já agora, durante este princípio do século XXI).

E não devemos - nem podemos - esquecê-las, afinal elas são, antes de mais nada, a "voz do povo" (principalmente em suas reivindicações mais primordiais). E governo algum deve se esquecer de dar a devida atenção à esta voz...