sábado, 23 de dezembro de 2017

A história do Natal






Nas mensagens acima vemos votos de um Feliz Natal, algo muito comum nesta época do ano, não é mesmo? Mas, de onde veio essa tradição?? Será, tão somente, da tradição religiosa da Igreja Católica Apostólica Romana???

Bom, como toda festa que é muito antiga - e que tenha um forte cunho religioso, como é o caso - sempre acaba sendo extremamente difícil precisar como é que ela se iniciou, e de que maneira a comemoração do Natal tornou-se o que é hoje. E é exatamente isso que tentaremos fazer neste artigo - tanto para conhecermos o seu princípio, quanto para entendermos muitas de suas tradições!! Vamos a ele, então...

Natal tem em nossos dias os auspícios de ser uma festa católica - já que se trata da festa do nascimento de Jesus Cristo, o filho de Deus que veio à Terra para nos salvar de nossos pecados. Porém, ao analisarmos a gênese dessa festa acabamos por ver que ela é, na realidade, um amálgama de outras festas (e de outras tradições), como poderemos ver nesse artigo.

Isso se deve ao fato de que, como muitas outras religiões, os cristãos se utilizaram de tradições já existentes antes do cristianismo, para assim, facilitar a compreensão dos novos convertidos (em sua maioria, antigos pagãos que faziam parte do enorme território do Império Romano). E, como quando o Natal começou a ser comemorado não se tinha uma real ideia de quando - exatamente - havia nascido Jesus Cristo, esses primeiros cristãos e seus líderes acabaram por estipular algum dia próximo ao do "Solstício de Inverno" (cuja data é lembrada em todo dia 21/12, em todo o hemisfério norte). Devido sua importância no calendário - e na vida de todos (uma vez que era primordial para a agricultura, essencial para esses povos antigos) - já era, desde há muito tempo, um momento de festividades para os próprios romanos, sendo esse período conhecido por estes como as "Saturnais", já sendo, àquela época, uma festa de grande confraternização (e onde até mesmo trocas de presentes eram comuns)...


E, seguindo mais para trás na História, descobrimos que o Natal tem suas reais origens em povos bem mais antigos que os tão civilizados romanos (uma vez que as comemorações do "Solstício de Inverno" já faziam parte dos calendários festivos de povos tão díspares quanto os bárbaros celtas e germânicos, os povos que erigiram as construções de Stonehenge, nas atuais ilhas britânicas, e, até mesmo, por povos indígenas do atual território dos Estados Unidos da América.




Isto feito, pelos romanos - após tornarem-se cristãos - o Natal acabou sendo estipulado como tendo ocorrido numa data próxima à do "Solstício de Inverno", por mera comodidade (bem como pela facilidade que isto trazia na hora da conversão de mais e mais pagãos ao cristianismo)...

E, com o tempo, mais tradições foram sendo criadas, inseridas ou alteradas, com o intuito de tornar o Natal mais aprazível e identificável por estes novos cristãos. E é o que veremos à seguir...


A Árvore de Natal, por exemplo: sua tradição também remonta ao período pagão (ou seja, pré-cristão), uma vez que os povos europeus antigos - essencialmente formado por agricultores - já tinham essa tradição, uma vez que, para eles, ter um pinheiro dentro de casa era considerado muito bom, pois trazia bons agouros para a casa e para toda a família que nela habitava. E, com o tempo, eles foram decorando essas árvores para deixá-las mais aprazível à família e aos que à visitavam (para as festividades do "Solstício de Inverno"). Incluir essa tradição - e ligá-la às novas tradições advindas do Natal - foi só uma questão de tempo...



Já com relação à "grande estrela" do nosso atual Natal, ou seja, ao Papai Noel, este tem sua história ligada em partes à tradição católica, em partes à tradições não tão religiosas assim. Afinal, a figura que deu origem ao "bom velhinho" foi a de um bispo da região da atual Turquia - chamado Nicolau (sendo, depois, canonizado, tornando-se conhecido por "São Nicolau"). Diz a lenda que ele era extremamente bondoso e que, na noite de Natal, ele saía pelas imediações de sua residência episcopal, distribuindo presentes (e mesmo dinheiro), às famílias mais pobres de sua congregação (isso lá nos idos de 280 d.C.). Com o tempo, essa figura foi se metamorfoseando num ser mítico, que morava no Pólo Norte (mais especificamente na região da Lapônia, na atual Finlândia), e que passava o ano todo junto aos seus ajudantes (seus fiéis duendes), que fabricavam muitos e muitos brinquedos, e sendo que estes seriam entregues às crianças do mundo todo na noite de Natal.


E, já com relação à sua indefectível indumentária vermelha, uma das lendas (esta relacionada aos primeiros momentos da Revolução Industrial), diz que seu visual foi criado por uma ainda então pequena empresa que começou a usá-lo como "garoto-propaganda" de seu principal produto no tempo do Natal. Estamos falando da empresa Coca-Cola (criada em 1886), e de seu Papai Noel, que, desde que suas propagandas começaram a ser veiculadas (e repetidas à exaustão, em todos os Natais desde então), acabaram por dar a atual configuração do nosso Papai Noel (com suas roupas vermelhas, sua cara de bonachão e as suas atitudes bondosas). Verdade ou não (já que há controvérsias quanto à essa história), a figura do Papai Noel foi ficando cada vez mais indissolúvel em relação ao Natal.


Agora, com relação à outra das grandes tradições natalinas (esta bem ligada à questão da religião católica), a da montagem de presépios, diz a lenda que o primeiro a montar esta pequena representação de como teria sido o primeiro Natal, foi São Francisco de Assis, que, em 1223, criou uma representação da cena do nascimento de Jesus Cristo (sendo que este primeiro presépio foi, na verdade, um "presépio vivo"). Com o tempo, artesãos de várias localidades foram criando as suas próprias representações, com o uso de imagens - grandes ou pequenas - transformando a criação e a montagem dos presépios em uma arte (e em outra das tradições de Natal).


Espero ter conseguido dar uma nova luz à como foram sendo criadas as tradições de Natal, existentes em nossos dias, ainda mais se tivermos em conta que elas são tão ou mais antigas que o próprio cristianismo...

E, pra não fugirmos às mesmas tradições aqui apresentadas, desejo a todos um Feliz Natal!! E até 2018, com novos artigos e muitas novidades em nosso blog. São estes os sinceros votos deste que vos escreve...

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A "Era Vargas": os vários governos de Getúlio, em suas quatro fases no poder


Getúlio Dorneles Vargas - ou, simplesmente, Vargas - é a figura mais controversa e rica (do ponto de vista histórico), da história republicana do Brasil. É também a de maior oscilação no tipo de sentimentos que suscita, uma vez que é sempre, ou amado ou odiado, pelo povo.

Sendo assim, devido a essa riqueza toda à que o personagem remete, quero, com este artigo. fazer minha pequena contribuição à sua história, explicando o porque dele ter tido - e ainda ter - essa importância toda em nossa História, tendo, mesmo, batizado o seu extenso período no poder de "Era Vargas". Vamos, portanto, ao artigo...

[Acima: charge do cartunista paulistano Chico Caruso, onde se mostra a "evolução" de Getúlio Vargas, em vários momentos de seu longo período de tempo no poder.]

A Revolução de 1930

Tudo começou com a chamada Revolução de 1930, que, em outubro deste ano, tomou o poder, derrubando, assim, o então presidente - Washington Luís - e terminando com o primeiro momento de nossa república (que, doravante, ficaria conhecida como "República Velha"). Ela foi tramada - e perpetrada - por políticos de estados que não mais queriam compactuar com a chamada "Política do Café com Leite" (quando os presidentes eram eleitos sempre seguindo uma regra tácita de alternância entre candidatos, sendo eles, ora paulistas - já que era o estado produtor do "café" - ora mineiros - uma vez que era o estado pecuarista, abastecendo o país de "leite" e seus derivados). Feita a "revolução" e com o poder tomado, o líder maior da mesma acabou empossado como presidente da República, iniciando-se a "Era Vargas" com o que convencionou-se chamar de "Governo Provisório". É o que apreciaremos à seguir... 


[Acima: uma foto do desenlace final da Revolução de 1930, com Getúlio Vargas posando como líder da "revolução" e rodeado por seus aliados "revolucionários".]

1) Governo Provisório (1930 - 1934)

Este período iniciou-se com a indicação - entre os líderes da Revolução de 1930 - de Getúlio Vargas para ocupar a presidência da República (de forma "provisória", até ser elaborada uma nova constituição, com uma posterior convocação de eleições). Este período do governo de Vargas pode ter sido tudo, menos provisório, uma vez que sua duração foi de quatro anos (mesmo período de tempo dos atuais mandatos presidenciais).

O fato mais importante desse período foi a eclosão da Revolução Constitucionalista de 1932, ocorrida em São Paulo (desde o início, o estado mais avesso à Vargas e o seu governo), onde os paulistas pegaram em armas e lutaram contra o governo federal, exigindo uma nova constituição e eleições presidenciais. Os combates foram ferrenhos, com batalhas nas cercanias de São Paulo, bombardeios a prédios do centro da capital paulista e lutas travadas por cidades do interior do estado. Após ser traído por outros estados que iriam se juntar à sua luta, São Paulo perdeu sua revolução. Porém, acabou sendo o "vencedor moral" do embate, uma vez que sua exigência maior - uma nova constituição - teve de ser acatada por Vargas, que convocou uma constituinte para o ano seguinte - 1933 - sendo que, em 1934, foi promulgada a nova constituição do Brasil.



[Nas imagens anteriores: na primeira, um cartão postal alusivo à morte dos quatro estudantes - Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo - assassinados em 23 de Maio de 1932, cujo fato - bem como a sigla criada a partir de seus nomes: MMDC (esta usada como um símbolo da campanha de alistamento de combatentes para a futura revolução que se avizinhava) - ajudou a desencadear os acontecimentos que levaram à Revolução Constitucionalista de 1932, iniciada em 9 de Julho do mesmo ano; e, na segunda imagem, podemos ver alguns dos revolucionários que se alistaram para lutar por uma nova constituição para o Brasil.]

2) Governo Constitucional (1934 - 1937)

Este período se iniciou com a promulgação da Constituição de 1934, e a posterior eleição de Getúlio Vargas como presidente da República (agora de uma forma, digamos, legal, uma vez que se elegeu pelo voto, mesmo que indireto, algo que estava previsto nessa nova constituição).

O fato mais marcante desse período foi a Intentona Comunista, ocorrida em 1935. Foi, como o nome sugere, uma tentativa de golpe comunista (uma "intentona": uma tentativa frustrada de golpe; na verdade, um nome pejorativo dado depois pelo governo), que foi liderada por Luís Carlos Prestes, então um membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB). E, em última instância, ela acabou servindo como combustível para o sentimento anti-comunista (algo muito comum no período do Entre-Guerras), sentimento este que será muito bem usado na farsa do Plano Cohen (onde supostamente o exército encontrou provas de um plano de golpe de Estado comunista), dando a desculpa que Vargas precisava para que ele próprio desse um golpe de Estado, iniciando a ditadura do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937.  



[Nas imagens acima: na primeira, Getúlio Vargas e deputados constituintes no dia da promulgação da Constituição de 1934; e, na segunda imagem, os movimentos das poucas tropas durante a Intentona Comunista, em 1935.] 

3) Ditadura do "Estado Novo" (1937 - 1945)

Este período principia com a instauração da ditadura do Estado Novo, em novembro de 1937, quando Vargas - que sempre nutriu grande simpatia por governos autoritários, como o de Mussolini, na Itália, e o de Hitler, na Alemanha - criou sua versão tupiniquim de totalitarismo, com a ditadura do Estado Novo. Assim, começaram as perseguições políticas, a censura aos meios de comunicação, as prisões e a tortura da polícia de Felinto Müller, e outras ações repressoras da máquina totalitária federal. 

O fato histórico primordial do período - não só para o governo de Vargas, mas também para a História global - foi a Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre 1939 e 1945 (portanto, toda ela está inserida dentro do período de tempo em que vigorou o Estado Novo). E, nesse ponto, era imprescindível a entrada do Brasil na guerra - ao lado dos Aliados; porém, Vargas ficou "em cima do muro" durante bastante tempo, só oficializando a entrada do Brasil no time dos Aliados quando os Estados Unidos da América concedeu empréstimos e tecnologia para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em 1941. Ao enviar a Força Expedicionária Brasileira (FEB), para lutar na Segunda Guerra Mundial, Vargas acaba dando um "tiro no pé", cavando a sua própria derrubada do poder (após o término da guerra e o retorno dos pracinhas ao Brasil), afinal eles haviam ido à Europa para derrubar ditaduras e não havia sentido algum continuar vivendo em uma, fazendo com que estes soldados engrossassem o coro dos descontentes, fazendo com que Getúlio Vargas fosse deposto, em 29 de outubro de 1945 (exatamente 15 anos e cinco dias depois de Vargas ter deposto - na Revolução de 1930 - o presidente Washington Luís, em 24 de outubro de 1930). Bem, deposto, sim, mas ainda não de todo afastado do poder (como Vargas logo mostraria). E é isso que veremos a seguir...




[Nas imagens anteriores: na primeira, Getúlio Vargas discursa na instauração da ditadura do Estado Novo; na segunda foto, ao centro, vemos pracinhas da FEB em algum lugar do norte da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial; e, na terceira imagem, a deposição de Getúlio Vargas, em 1945.]

Período "fora" do poder (1945 - 1950)

Mesmo tendo sido deposto, Getúlio Vargas não era uma "carta fora do baralho" na política brasileira, uma vez que, nas eleições que se seguiram à sua deposição (alguns meses após a sua derrubada pelos militares), foi o candidato que ele apoiava - o general Eurico Gaspar Dutra - que venceu as eleições para a presidência da República. E, nas mesmas eleições, também ele foi eleito senador (pelo estado do Rio Grande do Sul). Ou seja, ele havia sido retirado do cargo máximo do Executivo, porém abocanhou o maior dos cargos do Legislativo. Coisa que só uma engenhosa "raposa política" poderia fazer. E, se não bastasse, ainda tinha um imenso apoio popular, que clamava por sua volta à presidência (um movimento chamado de "Queremismo", já que seus membros gritavam e escreviam em suas placas a seguinte mensagem: "Queremos Getúlio!!"). E, como era de se esperar numa situação assim, não demorou muito para os "queremistas" tivessem de volta aquilo que tanto exigiram...
















[Nas imagens acima: na primeira, Getúlio Vargas conversa com seu sucessor, o general Eurico Gaspar Dutra; na segunda foto, ao centro, vemos o ex-presidente em campanha para o Senado, terminando com a sua eleição; na terceira imagem, manifestantes do movimento do "Queremismo"participando de um comício político; e, na quarta imagem, um panfleto anunciando a volta de Getúlio ao poder, que era distribuído, nos comícios, pelos membros do "Queremismo".]

4) Governo democrático-populista (1951 - 1954)

Este período se iniciou com a eleição de Getúlio Vargas para a presidência da República, em 1950 (e dessa vez através do voto direto). Nessa sua volta ao poder (Mas será que ele havia mesmo saído?), Vargas fez um governo bastante populista, centrado na relação entre a sua figura carismática - e extremamente paternalista - e o seu eleitorado.

O fato mais marcante desse período foi o próprio escândalo político de seu governo, ocorrido na reta final de seu mandato. Tudo começou com um atentado político contra o principal desafeto de Vargas - Carlos Lacerda - onde este foi baleado no pé, e onde seu acompanhante, um major da Aeronáutica - Rubem Vaz - foi morto. Com a investigação em andamento, descobriu-se que o chefe da guarda pessoal de Getúlio - Gregório Fortunato (apelidado de "Anjo Negro") - podia estar envolvido no crime (como um dos possíveis mandantes do crime). E isso, obviamente, também atingiu o governo de Getúlio Vargas. Se havia ataques de Lacerda antes, à partir disso os ataques foram ganhando em dramaticidade e em peso político, levando também os setores militares a ficarem contra o seu governo. Após aguentar uma grande pressão por sua renúncia, Vargas começa a dizer que não iria ceder à pressão, que não iria renunciar e que "só morto sairia do Palácio do Catete". Na noite entre 23 e 24 de agosto de 1954, a crise e a pressão por sua renúncia chega ao seu ápice, com movimentação de tropas no entorno do Catete. Encurralado e sem uma saída a contento, Vargas cumpre sua ameaça - no episódio que ficou conhecido como o suicídio de Getúlio Vargas - "saindo da vida para entrar na História" (como dizia em sua "carta-testamento"), quando, por volta das 8:00 h da manhã de 24 de agosto de 1954, desferiu um tiro no próprio peito, à queima roupa, tirando a própria vida. 





[Nas imagens anteriores: na primeira, capa do jornal "Última Hora", com a notícia do suicídio de Getúlio Vargas; na segunda, foto do velório de Vargas; e, na terceira imagem, foto do enterro de Getúlio Vargas, onde podemos ver dois de seus ministros - João Goulart, Ministro do Trabalho, e Tancredo Neves, Ministro da Justiça - acompanhando o féretro, quando este estava sendo levado ao caminhão que o levaria ao aeroporto, para que fosse, assim, trasladado para o Rio Grande do Sul.]


-.- X -.-

Há alguns que dizem ser o maior legado de Getúlio Vargas, o de ter - com seu suicídio - evitado um golpe de Estado que seria perpetrado pelos militares (e isso em 1954, ou seja, 10 anos antes do golpe militar de 1964), opinião defendida pelo próprio Tancredo Neves. Bem ou mal, Getúlio Vargas foi um dos políticos mais influentes (e com o período de tempo no poder mais longevo da história republicana do Brasil). E, como dito no início, você pode até estar na turma dos que o odeiam, ou na turma dos que o amam, porém, de uma coisa não há duvidas: este é um dos personagens de maior riqueza para que se conhecer melhor a história do Brasil de nossos dias. E isso é um fato, e contra fatos, não há argumentos...


[Na imagem a seguir: uma das últimas fotos de Getúlio Vargas em vida.]

sábado, 25 de novembro de 2017

Barão de Mauá: nosso primeiro empreendedor e a pré-industrialização do Brasil


Seu nome era Irineu Evangelista de Sousa, mas passou para a História com o seu título nobiliárquico: Barão de Mauá (e, depois, Visconde de Mauá, este menos lembrado ou conhecido). Nasceu em Arroio Grande - RS, em 28 de dezembro de 1813. Sua família tinha uma pequena estância, próxima a fronteira com o Uruguai. Ele teve várias atribuições em sua vida, todas ligadas ao empreendedorismo, que foi, em última instância, o objetivo primeiro de sua vida e a sua verdadeira profissão. Foi armador, comerciante e banqueiro. Também foi um visionário e, como tal, quis apostar em uma outra atividade ainda no começo em todo o mundo, e muito pouco em voga na América do Sul da época: a indústria.


Tudo começou com a construção da primeira estrada de ferro da América do Sul, a Estrada de Ferro Mauá, terminada em 1854, no Rio de Janeiro. Foi devido à sua construção que recebeu do imperador Dom Pedro II o título de Barão de Mauá, no mesmo ano.

[Abaixo uma montagem com uma imagem de Irineu Evangelista de Sousa sobre uma foto de uma das locomotivas de sua Estrada de Ferro Mauá]




Foi o responsável pela criação do primeiro estaleiro do Brasil, no Rio de Janeiro (onde hoje fica a chamada Praça Mauá, na região portuária da cidade), bem como também da primeira fundição do Brasil, mais uma vez no Rio de Janeiro (em muito por ser o Rio a capital do Império do Brasil). Investiu também em uma frota de barcos à vapor, no Rio Grande do Sul e, de novo no Rio de Janeiro, criou uma usina de gás na capital do império, a Companhia de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro.

[A seguir, uma imagem da companhia de gás do Barão de Mauá.]



No auge de seu império, na década de 1860, Mauá tinha 17 empresas em seis países (à saber: Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos da América, França e Inglaterra). Por volta de 1867, o valor total dos ativos de todas as suas empresas era maior que o orçamento do próprio Império do Brasil, na proporção de 115 mil contos de réis de Mauá, contra os 97 mil contos de réis do orçamento imperial (para se ter uma ideia melhor do montante é só trocar o termo "mil conto de réis" por "milhões de libras esterlinas"). Seu Banco Mauá foi bastante forte em toda a região platina da América do Sul.

[À seguir, na sequência: uma das fábricas do Barão de Mauá e sua fábrica de cerâmica, ambas no Rio de Janeiro.]




Porém, parece que os regentes da casa dos Bragança e Bourbon (que, afinal, também era a casa real do imperador Dom Pedro II, já que este era neto do rei de Portugal, Dom João VI, a época já morto), parecia não gostar muito da indústria. Afinal de contas, ainda no século XVIII, quando o Marquês de Pombal - Sebastião José de Carvalho e Melo - estando como regente no lugar de Dona Maria I (mais conhecida como "Dona Maria, a Louca"), quis implantar a indústria lusitana, teve bastante resistência da provinciana corte de Lisboa. Ele não conseguiu seu intento e a indústria portuguesa não decolou...

[Abaixo, um retrato do Marquês de Pombal.]


Podemos dizer que o mesmo conflito de interesses se deu entre a ambição industrial de Mauá e a extremamente agrícola e provinciana corte imperial do Rio de Janeiro. Como seus empreendimentos industriais faziam torcer os nobres narizes da corte carioca, alguns de seus membros - sendo estes, banqueiros - começaram a dificultar os investimentos de Mauá. Isso fez com que seus negócios começassem a caminhar, a passos largos, para um rápido declínio, fazendo com que seu império industrial - a mega-empresa Casa Mauá & Cia. - entrasse em falência, sendo esta decretada em 1878.

[À seguir, na sequência: uma das sedes de sua empresa, no Rio de Janeiro, e uma das agências de seu Banco Mauá, em Montevidéu, no Uruguai, em fotos tiradas depois da decretação de falência da Casa Mauá & Cia..]



O Barão de Mauá era um homem a frente de seu tempo, ousando pensar na contramão da maioria. Era um liberalista econômico que comungava com os ideais de Adam Smith e foi um abolicionista desde o início dessa luta (já que concordava com os ingleses, também achando que o novo sistema econômico que estava sendo colocado em prática - o capitalismo industrial - precisava de mão-de-obra assalariada (para que os operários fossem também consumidores), e não de escravos. O legado deixado por Mauá não ficou tão aparente assim (num primeiro momento), porém o tempo foi mostrando que ele ajudou muito o Brasil como a sua experiência de pré-industrialização. E, quando a industrialização veio com mais força, já no início do século XX, ela não era uma total desconhecida dos brasileiros. Mas isso já é outra história (quem sabe para um próximo artigo). Então, até lá...

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Os 40 anos do Punk Rock

Há pouco mais de 40 anos atrás - mais precisamente em 28 de outubro de 1977 - foi lançado o álbum seminal do movimento Punk Rock. Estamos falando de "Never Mind the Bollocks", disco de estréia da banda punk Sex Pistols.

[Abaixo, a capa do disco que foi citado acima.]


O Sex Pistols é considerado como o primeiro grupo de punk rock do mundo, e é uma das mais cultuadas bandas da história do punk. Sendo assim, o lançamento de seu primeiro disco - e único, já que foi somente este LP que foi gravado em estúdio - é considerado como o pontapé inicial do próprio movimento punk. Os shows do Sex Pistols eram selvagens e psicóticos, com a banda destruindo o palco - literal e figurativamente - e seu vocalista, o cantor John Lydon (a época chamado de "Johnny Rotten", algo como "Joãozinho Podre", numa livre tradução), tinha os dentes podres, um visual pra lá de desleixado (a semente do visual punk, com calças rasgadas, camisetas sem mangas e rasgadas e coturnos pretos nos pés), e, não raro, cortava os lábios com latas e garrafas de cerveja lançadas ao palco pelo público (que também não era lá dos mais calmos, é bom que se diga).


A banda Sex Pistols foi formada em 1975, e tinha Johnny Rotten nos vocais (como já vimos), Steve Jones nas guitarras, Paul Cook na bateria e Glen Matlock no baixo (depois, pouco antes do lançamento do disco, este este último foi trocado pelo baixista Sid Vicius). Também é importantíssimo na história dessa banda o seu empresário, Malcolm McLaren, que era considerado como o "quinto integrante" da banda, responsável pela boa divulgação, por shows antológicos (e recheados de problemas, tais como "quebra-quebras" e brigas fenomenais), bem como também pelo batismo da banda (já que foi ele quem deu o nome de Sex Pistols à banda que começava a empresariar, devido mesmo ao nome de uma loja, da qual era dono - que inicialmente se chamava "Too Fast to Live, Too Young to Die" - mas que, pouco antes de McLaren se envolver com a banda, havia tido o seu nome mudado para, simplesmente, "Sex").

[Acima, foto de um dos primeiros shows do Sex Pistols.]


Após este início, várias bandas de punk foram aparecendo - tais como os também ingleses The Clash e os norte-americanos do Ramones - mas o Sex Pistols sempre teve - apesar de sua curta história (a banda não durou nem um ano, tendo terminado já no início de 1978) - a preferência de muitos (inclusive deste que vos escreve), em muito devido aos hits de seu único LP (em especial das ótimas músicas "God Save the Queen" e "Anarchy in U.K.").

[Acima, o Sex Pistols bem no início da banda, poucos depois do lançamento de "Never Mind the Bollocks".]

-.- X -.-

O Sex Pistols acabou disseminando pelo mundo a cultura punk, e no Brasil não foi diferente. Por aqui também várias bandas foram aparecendo, sendo que a  banda que é considerada a primeira do punk brasileiro é a Restos de Nada. Depois vieram outras, tais como: Inocentes, Replicantes, Garotos Podres e Ratos de Porão (para ficarmos somente com as mais conhecidas).

[Na foto abaixo, a banda Restos de Nada.]


Outros meios culturais também ajudaram a divulgar a cultura punk no Brasil, e, das várias fontes (durante os Anos 1980), uma bastante forte foram os quadrinhos da revista "Chiclete com Banana", do cartunista paulistano Angeli, com seu emblemático personagem Bob Cuspe, um sucesso estrondoso...

[Abaixo, o personagem Bob Cuspe, de Angeli, da revista "Chiclete com Banana".]


Porém, como todos os movimentos culturais - e musicais - bastante inovadores e inusitados, o punk perdeu sua força (no mundo e no Brasil), durante as décadas de 1990 e de 2000, e acabou sendo englobado pela mídia e por outros tipos de nuances sociais (tais como a moda, por exemplo).

[Abaixo, foto de moda onde se mostra calças rasgadas, uma herança da moda punk de fins dos Anos 1970.]


Mas também há um adendo que pode dar esperança aos punks de plantão: como muitos movimentos culturais do passado, o punk está sendo reavivado, revisitado e revigorado nos Anos 2010 (como muitos outros, neste mundo cada vez mais globalizado, o punk vai sendo "bebido" como fonte para algo novo, bem como também de uma revisão dos bons movimentos do passado). E isso é uma boa notícia, afinal, o que é bom não pode - e não deve - morrer. Nunca!!!

[Abaixo, punks em uma manifestação política - nos Anos 1980 - coisa que vemos bastante também nos dias de hoje, sendo que alguns são - e muitos acabam sendo confundidos como - do movimento dos "Black Blocks".] 


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Zumbi, o Quilombo dos Palmares e a Consciência Negra



Uma das figuras mais controversas e pouco conhecidas da história do Brasil é Zumbi dos Palmares, o grande líder do bastante citado Quilombo dos Palmares. Digo "controversa'' devido algumas alegações feitas à sua administração no quilombo (como a que diz que havia escravos no quilombo e que o que mais detinha escravos era o próprio Zumbi, coisa que não foi comprovada até hoje); e, digo "pouco conhecida" devido a sua história ainda ser bastante esparsa, superficial e cheia de incógnitas. É intenção desse artigo trazer mais luz sobre este personagem de nossa história. Vamos a ele...

[Acima, uma ilustração de Zumbi dos Palmares que consta de muitos livros didáticos utilizados em muitas das escolas do Brasil...]


Como sua vida é pouco documentada, alguns historiadores dizem que ele nasceu no sertão de Pernambuco (mais precisamente na região da Serra da Barriga), em 1655, e - segundo dizem alguns - nasceu livre; porém, foi capturado e - ainda menino - dado como presente a um padre missionário português (daí ele ter, teoricamente, aprendido a língua portuguesa e o latim); já outros fazem uma alusão a ele ter, possivelmente, nascido na África. Seu nome - Zumbi - vem de um dialeto africano e seu significado é: "fantasma" ou "espectro"; e, foi ele o grande - e último - dos líderes do Quilombo dos Palmares, tendo sido morto num conflito para a destruição do quilombo (que veremos melhor mais adiante). Mas, é bom que se diga, a história do Quilombo dos Palmares é bem anterior à Zumbi, já que se fala de um quilombo na região da Serra da Barriga desde 1580. Outro grande líder do Quilombo dos Palmares Ganga Zumba - tentou (e conseguiu), um acordo com os portugueses para que se acabasse com as hostilidades entre os quilombolas e os fazendeiros do entorno do quilombo. Ah, aproveito para um pequeno e inusitado adendo: a palavra "quilombo" não vem de algum dialeto africano (como muitos podem pensar), mas sim, do tupi, de uma de suas palavras, mais especificamente de "calhambora", que significa: "aquele que foge"

[Acima, uma tela de pintura de Rugendas, com uma representação de quilombo.]


Mas, devido a um racha de poder no quilombo, Ganga ZumbaZumbi começaram a ter ideias distintas de como seria melhor governá-lo (sendo que o primeiro achava que ele e seus súditos do quilombo deveriam fazer um acordo com os fazendeiros, brasileiros ou portugueses; e o segundo não concordava com qualquer tipo de acordo). Isso bipolarizou o poder - e as ideias - no Quilombo dos Palmares, levando a uma guerra entre os simpatizantes de Ganga Zumba e os aliados de Zumbi, sendo que os últimos levaram a melhor, Ganga Zumba foi envenenado (possivelmente por um dos partidários de Zumbi), e o próprio Zumbi chegou, assim, ao poder no Quilombo dos Palmares.

[Acima, uma ilustração mais atual, com uma representação do líder de Palmares, Ganga Zumba.] 




Após 15 anos de sua tomada de poder no Quilombo dos Palmares, o líder Zumbi acabou encontrando um oponente à sua altura, o bandeirante Domingos Jorge Velho (que foi contratado pelo governo de Pernambuco para acabar com o quilombo que mais dores de cabeça dava à elite branca dominante). Os bandeirantes acabaram furando as defesas quilombolas e, em 20 de novembro de 1695, Zumbi foi morto. Após sua morte, seu corpo foi esquartejado, e as partes foram distribuídas e expostas em várias localidades (visando assustar outros negros, demovendo-os de ideias de fuga e de criação de quilombos). Sua cabeça ficou exposta no Pátio do Carmo, em Recife, até que ficasse totalmente em decomposição. E, em homenagem à sua morte (e por sua luta pela liberdade dos negros quilombolas, em última instância), o dia de sua morte ficou conhecido como "Dia da Consciência Negra" (um feriado nacional que foi criado em 2003, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva). 

[Acima, uma pintura de Benedito Calixto, onde estão representados dois bandeirantes - ao menos como o pintor achava que eles fossem, em fins do século XIX e início do século XX - onde vemos Domingos Jorge Velho, que é o bandeirante à esquerda na tela.]


Mas Quilombo dos Palmares ainda resistiu mais um pouco, mesmo após a morte de Zumbi, sendo que sua queda final aconteceu somente no ano de 1710.

[Abaixo, uma ilustração mais atual com uma representação da queda do Quilombo dos Palmares.]  



A força de Zumbi e do Quilombo dos Palmares ainda se faz presente no imaginário popular, e em meios de comunicação e de movimentos culturais. 

[A seguir, temos um busto de Zumbi dos Palmares próximo ao Setor de Diversões Sul, em Brasília, Distrito Federal. E, logo depois, uma foto de Zumbi dos Palmares, conforme o personagem foi retratado no filme brasileiro "Quilombo", de 1984, dirigido por Cacá Diegues.]  



Mas, por que "Consciência Negra"? Bom, diz-se que este dia deve ser de reflexão e de conscientização da vida dos negros, para uma maior compreensão de sua história, de sua vida e de suas conquistas e lutas. Mas, há mesmo conquistas para se comemorar? Sim, há, tais como as cotas em universidades, o próprio ProUni, a maior atenção da Justiça em casos de racismo, etc... Porém, muito ainda tem de ser feito. E, como um bom "termômetro" disso, nada melhor que as charges (principalmente aquelas que lidam com costumes da sociedade); sendo assim, é com uma delas que vou terminar este artigo (que espero ter sido bem elucidativo e respeitoso para com os negros, uma das três que formaram o povo brasileiro, juntamente com os índios e os brancos)...

[Então, por fim, segue a charge abaixo - de autoria do grande cartunista paulistano Angeli - onde se mostra muito do que é ser negro num país de elite branca, e tudo isso sem a necessidade de muito texto, mostrando que, mesmo com um feriado da "Consciência Negra", o negro ainda está bem longe de ter uma vida realmente digna no Brasil. Uma representação simplesmente excelente!!...]