sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A cerimônia do "Beija-Mão": a 'avó' da corrupção no Brasil, ainda no século XIX??...

O Beija-Mão era uma cerimônia - ou mesmo um ritual - que ocorria em Portugal, desde a Idade Média. E ele foi sendo usado em larga escala no Brasil, após a chegada de Dom João, em 1808... 

[Como mostra a pintura/charge abaixo, que foi feita por um artista e militar inglês, cujas iniciais são A.P.D.G., único dado conhecido sobre ele]


Era também usado em diversos reinos da Europa (em especial nos reinos mais absolutistas). O ato era para se passar algumas mensagens, já que, por um lado, mostrava o paternalismo do monarca para com seus súditos; e, por outro lado, bem se mostrava ao rei a submissão de seus súditos (que eram, para o rei, seus vassalos, já que o primeiro pensava muito com uma ótica medieval de monarquia). Vai daí ter sido bastante disseminado na corte francesa (em especial na mega-corte do rei-sol, Luís XIV).


Com o tempo, esse costume foi ficando em uso somente entre nobres e aristocratas, em especial ao se cumprimentar uma dama da sociedade. 

[Como mostra a tela de pintura acima, de autoria de François Brunnery]

A pompa e a circunstância desse costume, como celebração ritualística dos reis e de seus súditos, caiu totalmente em desuso, entre os monarcas europeus, entre o fim do século XVIII e o início do século XIX. Porém, longe da Europa, a família real portuguesa - dos Bragança e Bourbon - manteve a prática em alta, sendo largamente utilizada pelo rei Dom João VI, bem como pelos imperadores do Brasil independente, Dom Pedro I e Dom Pedro II. Durante as cerimônias de coroação e aclamação como rei de Dom João VI, no Rio de Janeiro, em 1818, houve um grande Beija-Mão, como parte das comemorações... 

[À seguir, tela de pintura de Jean-Baptiste Debret, com cena da aclamação de Dom João VI]


  
... e, quando seguiu-se - após a Independência do Brasil - a própria coroação de Dom Pedro I, dentre outros eventos, adivinhe o que aconteceu?? Sim, uma grande celebração de Beija-Mão!! 

[Segue abaixo a tela de pintura que retrata a coroação de Dom Pedro I, de autoria, também, de Jean-Baptiste Debret


Mas, por que será que se manteve uma prática dessas, já em pleno desuso no "Velho Continente", aqui no Brasil?...

Bem, podemos dizer que isso muito convinha à monarquia lusitana, uma vez que, mesmo sendo a dignatária real da colônia do Brasil, ao virem para cá, com todo a sua corte real, estavam em um "território estranho" (é só ressaltar que nenhuma corte europeia havia ido sequer visitar uma de suas colônias, fosse ela na América ou na Ásia; que diria mudar-se para uma de suas colônias, com toda a sua corte). Sendo assim, coube a corte portuguesa reinar de uma forma mais branda - digamos assim - trazendo para si o povo (em especial, a elite brasileira). Assim, valia de tudo, desde ouvir seus desejos - e, quando conveniente e possível, realizá-los - nas cerimônias de Beija-Mão, até criar uma nobreza inchada e bem diferente da nobreza europeia (mesmo a portuguesa), com a venda de títulos de nobreza - sendo que, nesse quesito, a monarquia lusitana criou mais títulos de nobreza, aqui no Brasil - no século XIX - que nos cinco séculos anteriores, em Portugal (vindo daí, o fato desses títulos distribuídos no Brasil não serem hereditários).



Uma inusitada - e última - curiosidade sobre a cerimônia do Beija-Mão: foi devido a ela que o Brasil teve seu primeiro transporte público, uma vez que Dom João VI podia participar dela em qualquer um de seus palácios. Quando era no Paço Real, no centro histórico do Rio de Janeiro, não havia problemas de locomoção, porém, quando o Beija-Mão era no palácio em Santa Tereza ou na Quinta da Boa Vista - lugares muito afastados à época, sendo mesmo considerados como periferias do Rio - a dificuldade de locomoção era grande. Daí ter-se tido a ideia de se criar linhas de transporte público para atender a essa demanda...

Podemos, portanto, concluir que algumas formas de criação de apoio político das quais a monarquia portuguesa se utilizou, eram - na realidade - o início da corrupção brasileira? Bem, não havia esta conotação - à época dos acontecimentos - porém, é muito emblemático que a monarquia portuguesa (e sua cria, o Império do Brasil), tenha se utilizado da cerimônia do Beija-Mão (com o intuito de atender a desejos e pedidos do povo, tanto da plebe quanto de sua elite, visando apoio, em especial do segundo grupo), ou mesmo da venda de títulos de nobreza (com a finalidade de trazer a elite para debaixo de suas asas, fazendo-a adentrar o rol dos nobres, mesmo que de uma "baixa nobreza"), para cair nas graças da elite brasileira, e, assim, melhor governar o Brasil, já que este fazia parte, desde 1815, do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves! Mais "jeitinho brasileiro" que esse, impossível, não acham??... 

[Na ilustração acima, vemos Dom João VI no traço do cartunista brasileiro Spacca, que tive o prazer de conhecer, quando estudei na escola de artes Núcleo de Artes, de São Paulo, em um curso de "História em Quadrinhos e Desenho Publicitário"] 

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